Comentarista da Rádio Transamérica que já atuou em Cascavel foi preso em operação contra corrupção envolvendo a prefeitura de Fazenda Rio Grande
Publicado em 09/10/2025 às 14h40

Fernando Gomes, um dos nomes mais conhecidos da crônica esportiva do Paraná, é um dos suspeitos presos na operação deflagrada pelo Ministério Público do Paraná que investiga um rombo de R$ 10 milhões nos cofres da Prefeitura de Fazenda Rio Grande, região metropolitana de Curitiba. Comentarista da Rádio Transamérica, ele ficou famoso por apresentar por muitos anos o programa Mesa Redonda, na CNT.
A Operação Fake Care apura um esquema de corrupção na pasta da saúde de Fazenda Rio Grande. De acordo com o órgão, servidores públicos e empresários são investigados por corrupção ativa e passiva, contratação direta ilegal, peculato e lavagem de dinheiro. O prefeito da cidade, Marco Marcondes (PSD) é um dos presos.
Abrilino Fernandes Gomes – o nome oficial do comentarista – tem 77 anos e é sócio de uma das empresas investigadas por envolvimento no esquema. Ele também era assessor da liderança do PSD na Assembleia Legislativa do Paraná.
O MP aponta a atuação de uma organização criminosa que teria desviado recursos públicos por meio de contratos direcionados com uma empresa responsável por serviços de testagem domiciliar e levantamento estatístico. Segundo as investigações, o grupo simulava processos legais de contratação para justificar pagamentos superfaturados e repasses ilícitos.
Além de Fernando Gomes e do prefeito Marco Marcondes, foram presos Francisco Roberto Barbosa, secretário da Fazenda (ex-secretário de Saúde), Alberto Martins de Faria, auditor do Tribunal de Contas do Paraná, e Samuel Antonio da Silva Nunes, sócio de empresa investigada.
Defesa O advogado Rafael Guedes de Castro enviou uma nota à imprensa sobre a situação do seu cliente, Fernando Gomes.
“Diante dos recentes acontecimentos, reiteramos que Fernando Gomes goza da presunção de inocência, princípio fundamental consagrado na Constituição Federal, segundo o qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. A defesa acompanha atentamente o caso e confia que todos os fatos serão devidamente esclarecidos dentro da legalidade e do mais absoluto respeito à Justiça.
Neste momento, pedimos serenidade e respeito à pessoa de Fernando Gomes e à sua família, evitando julgamentos precipitados e preservando o direito de defesa e a dignidade humana”, diz a nota.
O diretor da Transamérica, Rogério Afonso, informou à reportagem que a empresa irá aguardar os fatos desenrolarem para se pronunciar.
A liderança do PSD, para quem Fernando Gomes prestava serviços como assessor parlamentar, também emitiu uma nota:
“A liderança do PSD na Assembleia Legislativa, informa que o jornalista Fernando Gomes esteve lotado junto à liderança do partido entre junho de 2024 e setembro de 2025, cumprindo a contento suas funções. A bancada esclarece que o vínculo funcional foi encerrado no início de setembro, a pedido do próprio Fernando Gomes. A bancada reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e o respeito ao devido processo legal”.
De Abrilino a Fernando Gomes: a dinâmica carreira do nobre comentarista

Sinônimo de futebol paranaense no rádio e na televisão, Abrilino Fernandes Gomes já não ostenta os cabelos pretos de outrora.
Aos 75 anos de idade – 57 deles como repórter, narrador ou comentarista esportivo –, o gaúcho da pequena Herval, quase na fronteira com o Uruguai, hoje carrega uma cabeleira grisalha que imediatamente remete à sua experiência.
Mas a voz marcante, o trejeito peculiar e os bordões continuam lá, nobre e dinâmico leitor, como diria o próprio. Sem data de validade.
“Nunca programei parar. Não tenho nem ideia. Adoro fazer o que faço, não quero me aposentar”, diz Abrilino, ou melhor, Fernando Gomes, ao fim de mais de uma hora e meia de entrevista ao UmDois Esportes.
Com “espírito de 30”, o comentarista da Rádio Transamérica enche a boca para contar que havia jogado duas horas de tênis na noite anterior, como normalmente faz três vezes por semana.
“Mas agora jogo só dupla”, ressalta o dono da planilha que não falha, que marcou época mediando (e apimentando) o icônico programa de debate Mesa Redonda, da CNT, nas noites de domingo das décadas de 1990 e 2000.
“Cometi erros, equívocos, quem não comete? Me arrependo de coisas da vida pessoal, mas como profissional, profissão pública, me sinto feliz de poder fazer alguma coisa que as pessoas reconhecem. Sempre tem quem não gosta, mas é uma minoria”, afirma Fernando Gomes.
O início de Fernando Gomes
Bem antes de influenciar gerações de torcedores paranaenses, Fernando Gomes era apenas um guri apaixonado por futebol – e pelo Grêmio – no Interior gaúcho.
Nascido em 1947, ele narrava os próprios jogos de futebol de botão simulando o microfone de uma rádio fictícia com uma lata de talco amarrada em um barbante. As descrições eram reproduzidas num volume tão alto a ponto de ficar sem voz.
O objetivo era claramente chamar atenção. “Tinha um vizinho, o Seu Alberto, que sempre passava a cavalo e perguntava: Abrilininho, quanto tá o jogo?”, recorda.
Frustrado pelo desempenho limitado demonstrado como ponta ou lateral-esquerdo nas peladas na rua de chão batido perto de casa, foi amadurecendo o sonho de trabalhar com a bola de outra forma.
Virando o comentarista Fernando Gomes
Quando fez 18 anos, Abrilino mudou-se para Bagé, praticamente uma metrópole em comparação à sua cidade natal.
Em 1966, o primeiro emprego na área foi como auxiliar de plantão na Rádio Difusora, cargo conquistado por pura insistência, ao ficar das 9h às 18h aguardando na recepção para ser atendido pelo diretor.
Já na Farroupilha, na capital Porto Alegre, um erro transformou sua carreira. O diretor Armindo Antônio Ranzolin sugeriu esquecer o nome próprio para apostar somente no sobrenome Fernandes Gomes. Porém, o responsável por gravar a vinheta confundiu-se. Nascia assim, Fernando Gomes.
“Eu falei que estava errado, mas não daria para gravar no mesmo dia, só na outra semana. Falei: então deixa assim mesmo. E o curioso é que tenho um irmão chamado Fernando Fernandes Gomes”, comenta.
Vida em Cascavel
A cidade de Cascavel, no Oeste do Paraná, virou a base de Fernando Gomes a partir de 1970. A convite do narrador Paulo Martins, foi trabalhar como repórter na Rádio Colmeia, onde permaneceu por um ano. Depois, mudou-se para Apucarana para a primeira experiência na tela, pela TV Tibagi, em 1971.
Gomes chegou a se afastar totalmente do jornalismo esportivo entre 1973 e 1977, quando virou assessor de imprensa da prefeitura de Cascavel no mandato de Pedro Muffato. Mais tarde, foi nomeado secretário-geral do município.
O retorno às origens aconteceu em 1978, novamente na televisão. “Fui a primeira cara a entrar no ar. Abriu a vinheta e falei: está no ar a TV Tarobá de Cascavel”, relembra.
Indicado por Galvão Bueno
Em 1982, Fernando Gomes foi contratado para ser narrador, apresentador e produtor executivo da TV Bandeirantes, em São Paulo, substituindo ninguém mais do que Galvão Bueno.
A indicação partiu do próprio narrador carioca, a quem havia conhecido durante transmissões de automobilismo em Cascavel. “Ele foi para a Globo e deixou meu nome para o diretor Fernando Solera, que me convidou para fazer uma corrida em Goiânia. Depois da transmissão, fui para São Paulo conversar e recebi a proposta”.
A aventura na capital paulista durou um ano e foi encerrada por questões familiares. Mas Fernando Gomes seguiu contratado pela Band como narrador de eventos: do futebol ao basquete, do boxe à corrida.

Bordões
Na televisão, Fernando Gomes consagrou o termo “abutuou“, referindo-se à uma vitória enfática de um time sobre outro. A lista de criações, contudo, é extensa.
- Meu nobre e dinâmico ouvinte
- Isto posto, meu nobre
- Seu Manoel (ou outro jogador de destaque em determinado jogo)
- No futebol já vi de tudo, só não vi gandula voar
- Vá tomar um Melhoral
- Minha planilha que não falha
- Conheço o rengo sentado e o cego dormindo
- Adeus tia Chica, que me voy e tu fica
“Eu criei alguns jargões. Acho que na comunicação, se você tem uma marca, como o Galvão tem várias, as coisas pegam e te identificam”, acredita.
Parceria com o ET
Na rádio, Fernando Gomes e o operador Douglas Bay são os únicos remanescentes do projeto original do Transamérica Esportes. E a parceria entre ambos, que acontece sem script, virou um dos pontos altos dos programas e jornadas esportivas.
“Foi meio de improviso, numa das primeiras participações do ET, eu falei uma coisa, ele tirou sarro e mandei ele tomar um melhoral. O troço pegou e deu uma repercussão enorme, dá até hoje”, conta.
“Nada é combinado. Flui naturalmente no ar porque ele é um cavalo de inteligente, não é humorista de piada pronta, cria em cima do que você fala, tem uma cultura geral gigante. E o atrito é no ar, fora não. É o que mais me perguntam, mas o Douglas é um grande amigo”.

Leitura de jogo diferenciada
Quando está em casa, Fernando provavelmente está em frente à televisão caçando alguma partida para assistir ao lado da filha Ana Julia, de 15 anos.
O experiente comentarista é reconhecido pela capacidade de ler o jogo e traduzir o que está vendo de forma didática para o ouvinte. Algo que ele considera natural.
“Sempre tive muita facilidade. Aprendi muito com o Rui Souza, que era treinador do Guarani de Bagé e muito meu amigo. Eu era guri, a gente ia tomar um café e ele me explicava como armava o time e como via o futebol”, cita Fernando, que também chegou a treinar uma equipe na época em que vivia em Cascavel.
“O primeiro título da cidade de Cascavel no futsal estadual fui eu que ganhei, a Taça Tibagi”, fala Gomes, orgulhoso.
“Eu criei algumas jogadas que imaginei e foi dando certo… Acho que tenho facilidade para ver os rendimentos individuais e brinco assim: me dá quatro minutos e dez segundos que já te digo como o time está taticamente”, fecha.