Em depoimento, almirante Baptista Junior confirmou reunião sobre trama golpista e disse que ex-comandante da Marinha colocou tropa à disposição

O ex-comandante da Aeronáutica Carlos Almeida Baptista Junior afirmou nesta quarta-feira (21), em audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), ter participado de reuniões no Palácio da Alvorada em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) discutiu uma minuta golpista. Ao depor como testemunha de acusação na Primeira Turma da Corte, o brigadeiro confirmou ter presenciado o então comandante do Exército, Marco Antonio Freire Gomes, ameaçar o ex-presidente de prisão caso levasse seu plano adiante. Além disso, relatou que o ex-chefe da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, teve uma postura diferente dele e do general, colocando suas tropas “à disposição” do presidente.
O depoimento de Baptista Junior era um dos mais aguardados na ação penal e ganhou importância após, na segunda-feira (19), também ao STF, Freire Gomes negar ter dado “voz de prisão” a Bolsonaro. O ex-chefe da Aeronáutica já havia relatado o episódio à Polícia Federal (PF), no ano passado.
“O general Freire Gomes é uma pessoa polida, educada. Logicamente ele não falou essa parte com agressividade com o presidente da República, ele não faria isso. Mas é isso que ele falou. Com muita tranquilidade, com muita calma, mas colocou exatamente isso: se o senhor tiver que fazer isso, vou acabar lhe prendendo”, disse Baptista Junior aos ministros do STF.
De acordo com o brigadeiro, esse episódio aconteceu depois uma série de reuniões de Bolsonaro com os comandantes das Forças Armadas, no Palácio da Alvorada, após sua derrota nas eleições.
Segundo ele, os encontros começaram com discussões sobre a possibilidade de um decreto de Garantia de Lei e da Ordem (GLO) ou da decretação de um estado de defesa ou de sítio. A partir de certo momento, contudo, Baptista Junior disse que começou a ficar “muito preocupado” por considerar que o objetivo dessas medidas era, na verdade, impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“A partir de um momento, eu comecei a achar que o objetivo de qualquer medida dessa, de exceção, era, sim, para não haver a assunção pelo presidente que foi eleito“, disse. “— “E a partir desse momento, e eu digo que isso aconteceu do dia 11 ao dia 14 (de novembro), eu fiquei bastante preocupado“.
O ex-chefe da Aeronáutica disse que afirmou a Bolsonaro que não havia hipótese dele continuar no cargo:
“Eu falei com o presidente Bolsonaro: aconteça o que acontecer, no dia 1º de janeiro o senhor não será presidente“.