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Lobo em Pele de Cordeiro: O escândalo na Igreja Católica em Cascavel

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Por: Sérgio Ricardo

Em uma semana, a prisão do Padre Genivaldo revelou novos vários crimes a serem investigados pela Polícia Civil

Publicado em 30.08.2025 às 19h38

Amanhã, domingo (31), completa-se uma semana desde a prisão do Padre Genivaldo Oliveira dos Santos, de 41 anos, em Cascavel. O caso, que veio à tona após denúncias envolvendo o religioso, desencadeou uma série de investigações conduzidas pela Polícia Civil do município, por meio do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes. As apurações revelaram fatos graves também contra o antigo Arcebispo da Diocese de Cascavel, Dom Mauro Aparecido dos Santos, falecido em 2021.

Segundo a delegada Thaís Regina Zanatta, responsável pelo inquérito, nos últimos dias foram ouvidas 13 pessoas no âmbito das investigações sobre crimes contra a dignidade sexual supostamente praticados pelo padre, que atualmente cumpre prisão temporária. Entre os depoentes, duas pessoas foram formalmente identificadas como vítimas de assédio sexual cometido por Dom Mauro, enquanto as demais prestaram esclarecimentos como testemunhas que conviveram com o padre Genivaldo.

A gravidade das denúncias mobilizou o Secretário da Segurança Pública do Paraná, Coronel Hudson Teixeira, que esteve em Cascavel nesta semana para acompanhar pessoalmente as investigações e garantir à sociedade a seriedade com que o caso está sendo tratado. Conforme o secretário, as investigações tiveram início em julho de 2025, após denúncia formalizada por uma tia de uma das vítimas. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em dois endereços ligados ao padre: sua residência e uma clínica onde atuava como terapeuta. Computadores e aparelhos telefônicos foram apreendidos e serão submetidos à perícia.

De acordo com o secretário, o caso chegou ao conhecimento das autoridades por meio de um relatório de inteligência elaborado pela Polícia Militar, em conjunto com o 5º CIPM e a delegada Thaís. O documento apontou a participação de um padre e de um bispo em crimes ocorridos na região desde 2008.

Questionado sobre a atuação da Igreja Católica diante das denúncias, o secretário afirmou que todos os membros da gestão eclesiástica do período investigado serão ouvidos para esclarecer se tinham conhecimento dos fatos e quais medidas, se alguma, foram tomadas. “A tese é de que não foi tomada providência, como relatam as vítimas, mas isso tudo será apurado pela autoridade policial e judiciária para verificar a responsabilidade de cada um”, declarou.

O secretário também confirmou a existência de boletins de ocorrência registrados: um referente ao estupro de vulnerável de uma criança de três anos e outro relativo a um acidente de veículo envolvendo o padre, que resultou em morte e não teve inquérito instaurado à época.

O caso do bispo Dom Mauro Aparecido dos Santos, falecido em 2021, é considerado o mais grave, envolvendo estupro de vulnerável contra uma criança de três anos. O inquérito policial apura, inclusive, a possível omissão de providências por parte da Igreja Católica desde o surgimento das denúncias.

Acidente fatal envolvendo carro do padre

A investigação do Padre Genivaldo, além de revelar possível ações cometidas por Dom Mauro, também trouxe a tona o acidente fatal de Luiz Edimar Lima dos Santos, em 12 de outubro de 2019, no Bairro Periolo

Neste caso, o Delegado Adjunto da 15ª Subdivisão Policial de Cascavel, Pedro Luiz Fontana Ribeiro, detalhou o episódio, que até hoje não foi esclarecido e os responsáveis autuados. O veículo envolvido, um Peugeot 307, era de uso do padre Genivaldo, mas, segundo o delegado, no dia do acidente era conduzido pelo ‘familiar’ do padre, então com 18 anos e habilitação provisória.

O delegado informou que, à época, não houve instauração de inquérito policial, o que motivou a abertura de diligências imediatas para evitar risco de prescrição. Três pessoas já foram ouvidas: familiares da vítima e o vereador Mazutti, citado em relatos sobre o caso. O parlamentar negou qualquer envolvimento, classificando as acusações como inverídicas.

No dia do acidente, o motorista realizou o teste do bafômetro, com resultado negativo para álcool, e foi colocado no camburão da viatura policial para preservação de sua integridade física diante da comoção no local. Posteriormente, o padre Genivaldo teria comparecido ao local do acidente. Atualmente, a Polícia Civil tenta contato com o motorista, que estaria residindo e trabalhando em São Paulo, para ouvi-lo oficialmente.

Posicionamento da Igreja Católica

Em resposta às denúncias, a Catedral de Cascavel, por meio do Arcebispo Dom José Mário, afirmou ter seguido as orientações do Papa Francisco: assim que as denúncias graves foram recebidas, o padre foi afastado de suas funções e a Igreja passou a colaborar com as investigações. Dom José Mário expressou consternação e sofrimento diante da situação e destacou que a Igreja deseja que a verdade prevaleça. “Se o padre, de fato, cometeu delito, ele deve responder por isso”, afirmou.

O arcebispo ressaltou que, ao assumir a liderança em Cascavel, instituiu um código de conduta para todos os presbíteros, com orientações claras sobre o comportamento esperado. Segundo ele, a denúncia foi recebida formalmente pela Igreja, o que permitiu a adoção imediata dos procedimentos recomendados pelo direito canônico. O padre foi suspenso e um processo de investigação foi aberto. “Temos um prazo de 90 dias na diocese, depois encaminhamos para a Congregação da Doutrina da Fé, ou do Clero, em Roma, no Vaticano, onde eles farão o julgamento”, explicou. Caso seja confirmada a prática de pedofilia, a decisão do Vaticano tem sido a demissão do estado clerical.

Dom José Mário também comentou sobre as transferências de padres entre paróquias, afirmando tratar-se de prática comum para promover o dinamismo pastoral. No caso do padre investigado, ele já estava há nove anos na mesma paróquia, ultrapassando o período considerado ideal, razão pela qual sua transferência já estava em avaliação.

O arcebispo enfatizou o compromisso da Igreja em apoiar possíveis vítimas de abuso, oferecendo auxílio para superar as dificuldades e curar as feridas. Ao final, destacou que a Arquidiocese de Cascavel conta com 74 padres, a maioria composta por homens justos e dedicados, e pediu que a comunidade continue orando pela Igreja e por seus padres, reforçando a importância de denúncias formais em casos de conduta inadequada.

Andamento das investigações

Para a próxima semana, está prevista a oitiva de mais sete pessoas, sendo duas vítimas do sacerdote investigado — uma já identificada anteriormente, mas ainda não ouvida, e outra identificada durante as diligências dos últimos dois dias — além de cinco testemunhas.

Com base nos depoimentos já coletados, o número de vítimas confirmadas de Dom Mauro passou de uma para três, enquanto as vítimas confirmadas do sacerdote investigado aumentaram de sete para oito. Ressalta-se que a vítima de estupro de vulnerável ocorrido em 2008, quando tinha três anos, não está contabilizada entre as vítimas de Dom Mauro, pois as investigações ainda não permitem estabelecer essa correlação de forma conclusiva.

As investigações seguem sob sigilo, respeitando os procedimentos legais e a proteção das vítimas e testemunhas.

Com informaçoes de Fábio Wronski/CGN